Filho da minúscula Vila Real
de Santo Antônio, extremo sul de Portugal,
Manuel José é um dos treinadores mais
vitoriosos da história do Al Ahly, eleito
clube do século no continente pela
Confederação Africana de Futebol (CAN).
Ganhando a Liga Egípcia, mês passado
(abril), ele ergueu seu 15º troféu em nivel
doméstico e continental, participando de
dois Mundiais Interclubes, em 2005 e 2006.
Neste bate-papo, o treinador de 62 anos fala
do seu sucesso na terra dos faraós e um
pouco das rusgas com o badalado José
Mourinho.
Quais são as maiores
dificuldades para os tradicionais Al-Ismaily
e Al-Zamalek acompanharem o pique do Al Ahly,
que voltou a dominar de forma esmagadora o
cenário nacional?
Desde que cheguei temos
dominado de maneira abrangente a Liga
Egípcia, e só fomos perder a Liga dos
Campeões da África ano passado para o Etoile
du Sahel (da Tunísia) depois de anos
dominando. Quando assumi o clube pela
segunda vez estávamos com 14 pontos atrás do
Ismaily e mesmo assim fomos campeões ao
final da época. Montei um bom time e não
temos dado chance aos adversários. O Zamalek
é um dos únicos que ‘dão luta’ para nós, mas
sempre disparamos na frente e ganhamos com
alguma facilidade. Temos estrutura,
qualidade e sempre contratamos bem.
Depois de ganhar tudo em
nivel doméstico e continental, e repetir a
dose, qual é o segredo para manter os
jogadores motivados?
A partir do momento que um
profissional de futebol assina um contrato
ele deve prestar serviço ao clube, que no
caso do Al Ahly, a ordem é sempre ganhar,
ganhar e ganhar. O clube precisa de títulos,
de dinheiro. Temos 40 milhões de adeptos no
Egito, a maioria muito pobre cuja única
alegria é a paixão pela bandeira do clube.
Os nossos jogadores também vem deste povo
humilde, pertencem a essa gente. O povo
árabe ama futebol e temos que manter essa
paixão acesa. Alex Ferguson está há mais de
20 anos no Manchester United, ganhou tudo, e
ainda mantém a ambição e a dedicação
intactas.
Qual foi o motivo do
cancelamento da partida contra o Al-Tahrir,
da exótica Eritréia, válido pela Liga dos
Campeões da África?
Na Eritréia existem problemas
internos enormes. Eles não tem dinheiro para
viajar até o Cairo, não tem estrutura para
nos receber. É a primeira vez que eles
participam da Liga dos Campeões aqui na
África. Aí acharam melhor nos dar a vitória
por WO.
Além do campeão Etoile du
Sahel, quais são as equipes mais perigosas
que podem bater de frente com o Al Ahly na
Liga dos Campeões da África 2008?
São os tunisianos e o ASEC
Mimosas, da Costa do Marfim, que tem uma
grande escola. Marrocos e Argélia baixaram o
nivel. Os nigerianos, logo quando eu
cheguei, tinham o Enyimba, que estava
dominando a cena, mas hoje também baixaram
muito o nível e desapareceram. Na África
negra eles tem a filosofia de formar
jogadores para vender e acabam não
construindo grandes equipas, só o ASEC
Mimosas pode dar trabalho.
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A alegria de Manuel José no
Egito |
Você tem um futebolista
diferenciado que é o meia Mohamed Aboutreika,
que inclusive marcou o gol do titulo do
Egito na Copa das Nações Africanas
recentemente. Porquê está demorando tanto
para ele se lançar numa aventura européia?
Eu o descobri na 2ª divisão
daqui (no Tersana) e na altura ele já tinha
25 anos. Ele é excelente e ótima pessoa,
apegado a família e a religião. Ele
realmente teve muitos convites e como tenho
ótima relação com ele o aconselhei a não ir,
pois ele ganharia dinheiro, mas não seria
feliz como é aqui. No Egito ele é ídolo,
ganha troféus, é respeitado e imensamente
feliz.
O Senhor é um dos poucos
treinadores de equipes campeãs continentais
que adotam o 3-5-2 variando para um 3-4-3.
Qual a razão de estimar tanto esses esquemas
nas equipes que treina?
Frequentemente adotamos o
3-4-3, o 3-5-2 já usamos mais vezes no
passado. O 3-4-3 foi um modelo de risco, o
jogador egípcio não tem cultura tática, os
defensores, por exemplo, são fortes na
marcação, mas tecnicamente fracos. Através
deste modelo de jogo, consegui tirar o
melhor deles, os adversários tinham
dificuldades, ganhávamos partidas,
campeonatos, passamos a bater recordes. Aí
mantivemos o estilo e a postura. Mudar pra
quê?
O Egito foi bicampeão
continental jogando com um esquema similar
ao Al Ahly. Acha que sua equipe serviu de
inspiração para o técnico Hassan Shehata
montar a seleção dos ‘Faraós’?
Pode ter influenciado, em
2006 quando eles também ganharam a CAN,
havia 9 jogadores nossos entre os titulares,
nessa última conquista já tinha bem menos.
Mas é um pouco diferente, ele implanta um
3-5-2 e nós jogamos no 3-4-3.
Sua relação com Shehata é
boa?
A comissão técnica do Egito
faz poucos contatos conosco e com outros
clubes. É uma relação de simpatia e respeito
mútuo.
Você é apontado como um dos
homens que lapidou Luis Figo. Como foi esse
processo no Sporting Lisboa nos anos 80?
Ele era extremamente jovem,
fez uns 3 ou 4 treinos nos juvenis e já
víamos que ia ser um futebolista
diferenciado. Quero deixar claro que eu não
o lancei.
O Senhor trocou ‘farpas’ com
José Mourinho na imprensa portuguesa há
alguns anos. Qual o verdadeiro motivo do
rancor entre vocês?
(pausa e risos) Ele
comportou-se mal comigo. Na altura em que eu
estava treinando o União de Leiria, estava
tendo problemas com o clube, e antes mesmo
de eu sair ele assinou com o clube sem nem
sequer me consultar. Eu joguei com o pai
dele tanto na época que ele (Félix, pai de
Mourinho) era guarda-redes quanto no tempo
que ele era treinador do Setúbal, eu sou um
pouco mais novo, e não esperava essa falta
de respeito comigo. Julgo que faltou ética
por parte dele. Mas já é passado.
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Fazendo a festa do título com os
jogadores do Al Ahly |
A FICHA DE
MANUEL JOSÉ
Nome:
Manuel José de Jesus Silva
Data de Nascimento:
09/04/1946 em Vila Real de Santo Antônio,
Portugal.
Clubes:
Sporting Lisboa (1985/6 e
1990), Sporting Braga (1987 a 89), Espinho
(1991), Boa Vista (1991 a 96), Marítimo
(96), Benfica (1997/8), União de Leiria
(1999 a 2000), Al Ahly (2000 a 2002),
Belenenses (2002/3), e Al Ahly (desde 2003).
Títulos:
Copa de Portugal (1992),
Supertaça de Portugal (1992), Campeão
Egípcio (2005/06/07 e 2008), Liga dos
Campeões da África (2001, 2005 e 2006),
Supercopa Africana (2002, 2006 e 2007),
Supercopa do Egito (2005, 2006 e 2007), Copa
do Egito (2006 e 2007).