Atual campeão dos Emirados
Árabes Unidos, pelo Al Wasl, o veterano
treinador Zé Mário, de 58 anos, conversou
conosco sobre diversos aspectos relacionados
ao futebol árabe. Objetivo e frontal nesta
entrevista, o técnico carioca, que já
dirigiu sete clubes e três seleções do
Oriente Médio, acumula quase duas décadas de
experiência na região, com breves passagens
por Brasil e Japão. Ex-jogador de Flamengo,
Vasco, e Fluminense, nos anos 70, ele
ressalta o respeito que os árabes tem por
ele, e acha que vai demorar algum tempo para
um futebolista local fazer sucesso na
Europa. Definindo como “caótica” a situação
do futebol brasileiro, ele nem pensa em
voltar, e quer levar os ‘cheetas’ ao
bicampeonato nacional.
Confira como foi este contato com Zé Mário e
aprecie a abundante experiência de seus 43
anos ligados ao futebol.
Como você preparou o Al Wasl para
conquistar essa ‘dobradinha’, que foi Liga e
a Copa dos Emirados Árabes Unidos 2006/07?
Conte-nos sobre alguns métodos utilizados
desde a pré-temporada?
Ninguém acreditava no nosso time porque as
duas últimas temporadas foram desastrosas.
Cheguei falando em ser campeão e todos,
inclusive os jogadores, não acreditaram.
Começamos a pré-temporada em Nuremberg, na
Alemanha, fazendo amistosos e fomos
razoáveis. Chegamos a Dubai e mais dois
amistosos sofríveis. Aí fomos ao Qatar e
enfrentamos o Al Sadd, que era o melhor time
do país. Inclusive o Felipe está jogando lá,
e empatamos com uma excelente atuação, e aí
alavancamos para uma boa temporada. Sempre
dizendo aos jogadores que se comêssemos bem,
dormíssemos bem, e treinássemos bem, o
título viria. Eles foram acreditando e os
adversários dizendo que as nossas vitórias
eram na sorte e aí ganhamos as duas
competições.
O Al Wasl não ganhava o campeonato
nacional há 10 anos. Havia pressão por parte
da torcida, imprensa e diretoria?
Não havia pressão porque ninguém acreditava
neste grupo. Quando cheguei, todos pediram
para conseguir o quinto lugar, pois na
última temporada (2005/06) foram oitavo.
Portanto não esperavam muita coisa da mesma
equipe do ano anterior.
O time garantiu o título numa arrancada
de quatro vitórias nas rodadas finais. Foi a
única vez no decorrer do campeonato que
vocês conseguiram vencer quatro jogos
seguidos. O grupo estava bem motivado e
ambicioso na reta final, não?
Tivemos um desempenho melhor do que os
outros durante a temporada. Especialmente no
returno e demos tudo pelo título.
O brasileiro Ânderson foi um dos
protagonistas deste último título nacional
do Al Wasl. Mas voltou ao Al Sharjah. Vocês
não conseguiram mantê-lo no elenco por quê?
O Anderson estranhamente assinou um contrato
com o Al Sharjah em fevereiro, e por 50% do
que ele ganhava aqui no Al-Wasl. Muito
estranho, pois eu e o presidente do clube
demos todo apoio a ele durante a temporada,
mas quem sabe da vida dele é ele e eu
respeitei a decisão dele, apesar de achar
estranha.
Ele (Anderson) foi artilheiro dos últimos
três campeonatos nos Emirados Árabes
(2005/06/07), mas é desconhecido no Brasil.
Conte-nos sobre este jogador, que é um
fenômeno ai nos Emirados Árabes?
Ele foi meu jogador no Internacional, de
Porto Alegre, quando ainda era jovem, saindo
do Vila Nova, de Goiás, e quando o
Internacional estava numa fase muito ruim.
Depois jogou no Gama, ao lado do Dimba, e
acho que veio direto para cá. Ele é um bom
finalizador e foi muito importante para as
nossas conquistas.
Sem o Anderson e o também brasileiro
Oliveira, o Al Wasl teria chance de vencer o
campeonato?
Não. Os estrangeiros é que dão o toque de
diferença no campeonato e eles fizeram isso
nessa temporada.
Como você pretende trabalhar a equipe
para este inicio de temporada?
Para mim o futebol é rotina. As mudanças são
poucas. Futebol é simples. Treinar forte
fisicamente para o jogo ficar suave. Um bom
posicionamento dentro do campo. Explorar as
características de cada um e encaixar os
jogadores um com o outro, o que é o mais
difícil em se tratando de clube. Vamos
treinar mais forte do que o ano passado
porque agora os jogadores estão com um
lastro maior.
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No treino ao lado do preparado
físico brasileiro Wellington
Moura |
A contratação do atacante André Dias, do
Vasco, foi indicação sua? Quais jogadores
você pediu a diretoria para reforçar o grupo
para esta temporada 2007/08?
Os dirigentes aqui viram um DVD do André
Dias e me mostraram. Eu já sabia que ele
estava jogando no Vasco, pois acompanhamos
daqui todos os campeonatos do mundo inteiro.
Fui ao Rio de Janeiro, vi o treino do Vasco,
conversei com amigos e profissionais de
futebol que me garantiram que ele era uma
pessoa muito boa e um bom jogador, e aí
liguei para eles dando o meu ‘ok’. Também o
Wesley do Atlético Goianiense foi contratado
e estamos esperando por alguns jogadores
locais. Temos a Liga dos Campeões da Ásia
para disputarmos no ano que vem, e mais a
Copa do Presidente, e a Liga.
Atualmente, quais os melhores jogadores
do futebol dos Emirados Árabes?
O Oliveira foi considerado o melhor jogador
estrangeiro do país. Temos muitos jogadores
iranianos de um bom nível técnico jogando
aqui. Tem um jogador local de nome Ismael
Mattar, que é diferenciado. Excelente
jogador. Ele joga pelo Al-Wahda.
Ismael Matar é o único grande jogador da
seleção dos Emirados Árabes. Ele teria
potencial de alcançar níveis mais altos,
como jogar na Europa?
Não acredito que ele possa jogar na Europa
com sucesso. A diferença é muito grande.
Falta muito treinamento para todos os
jogadores locais. A temporada passada foi a
primeira como semi-profissionais. Antes eram
amadores e treinavam muito pouco em relação
ao Brasil e a Europa.
Qual avaliação você faz da Liga dos
Emirados Árabes?
Agora estão começando a investir bastante no
futebol. Acredito que essa temporada será
muito boa, pois temos seis equipes com
treinadores brasileiros trabalhando num
campeonato com 12 times e muitos jogadores
brasileiros.
Recentemente o meia iraniano Javad
Nekounam, do Osasuna, da Espanha, disse na
revista espanhola Don Balón, que o futebol
praticado na Liga Iraniana já é bastante
evoluído na parte tática. Pode-se dizer o
mesmo da Liga dos Emirados Árabes?
Discordo. O Irã possui jogadores muito bons
tecnicamente, mas taticamente ainda são
deficientes, pois não cumprem as
determinações como um brasileiro ou como um
europeu. Pelo menos é o que eu vejo na
televisão.
Os Emirados Árabes foram eliminados da
Copa da Ásia e o treinador francês Bruno
Metsu afirmou que os desfalques pesaram,
pois estavam sem seis jogadores que foram
titulares na conquista da Copa do Golfo. O
bósnio Dzemaludin Musovic, técnico do Qatar,
disse que os Emirados Árabes menosprezaram o
Vietnã na estréia, por isso, foram
surpreendidos e perderam. Você acha que eles
entraram de ‘salto alto’ no torneio porque
venceram a Copa do Golfo, no inicio do ano?
Não acompanhei a competição desde o inicio
porque estava de férias, no Brasil. Mas nem
eu poderia imaginar que o Vietnã pudesse
ganhar dos Emirados Árabes. O Vietnã evoluiu
surpreendentemente. Não sei se surpreendeu
também o Bruno Metsu. Se eu fosse o
treinador dos Emirados, teria mandado alguém
ver alguns jogos deles antes da competição.
Sem dúvida alguma. Talvez até o treinador
tenha menosprezado o Vietnã.
Você conversa muito com o Bruno Metsu?
Gosta do trabalho dele?
Não temos muito contato. Algumas vezes ele
foi ao vestiário nos cumprimentar depois de
uma vitória e ficou só nisso. Eu gosto do
trabalho dele apesar de achar que ele ignora
as necessidades dos clubes na hora de fazer
as convocações para amistosos. Duas semanas
antes da decisão do campeonato ele fez dois
amistosos contra clubes que não tinham mais
chances na nossa competição, e convocou
cinco jogadores nossos para nada. Corremos
risco de uma contusão já no final de
temporada. O amistoso não tinha razão de
ser. Foi só para mostrar trabalho e não
ficar ocioso.
Quais as principais diferenças entre
trabalhar com os jogadores orientais e os
futebolistas árabes? Qual deles, na média,
assimila melhor o que o treinador pede?
Sem duvida alguma os japoneses e coreanos
assimilam mais rápido as determinações. Às
vezes até em demasia. Pelo menos por
enquanto. Os árabes estão em progresso, mas
ainda falta muita coisa. Os árabes precisam
de continuidade de treinamento. A maioria
deles só começa a treinar com seriedade
depois que passam a jogar no primeiro time.
Você concorda que as seleções árabes só
serão competitivas quando exportarem seus
jogadores para a Europa? O jogador árabe tem
essa ambição de jogar na Europa ou se
acomoda no Oriente Médio pelo bom salário
que ganha?
Ainda vai demorar muito para um jogador do
Golfo se destacar na Europa. Poucos
jogadores têm essa ambição. Até porque a
vida deles aqui é muito boa. Eles não ganham
como os jogadores que jogam na Europa, mas é
o suficiente para viverem muito bem. Alem do
mais, têm um emprego que lhes dão
estabilidade.
A mentalidade dos dirigentes árabes é
muito parecida com a brasileira no que diz
respeito a trocas constantes de técnicos ao
longo do campeonato. Porquê é tão difícil
eles entenderem e realizarem planejamento
estratégico, dando condição para a comissão
técnica realizar seu trabalho a longo prazo?
Se o Brasil que é o país do futebol,
pentacampeão do mundo, não entende, como um
país que está engatinhando vai entender com
um espelho como o Brasil?
A relação com os diretores e ‘Sheikhs’ é
difícil?
Eu sempre fiquei muito tempo nos clubes que
eu trabalhei por aqui.
Minha relação com os ‘Sheikhs’ é de extremo
respeito mútuo. Nunca tive problemas com
eles. Nunca se meteram no meu trabalho. Por
isso fico por aqui. Não se ganha mais o que
outros ganharam, só em sair em dia já dá
para ficar por aqui mesmo.
Aqui no Brasil tem-se a idéia de que os
jogadores estrangeiros (especialmente as
estrelas em fim de carreira) que vão jogar
no Oriente Médio vão exclusivamente pelo
dinheiro e não se empenham. ‘Enganam’ em
campo, e passam o tempo relaxados e
indiferentes aos objetivos dos clubes. Isso
é verdade ou utopia?
Não são todos, mas já aconteceu com muitos
jogadores. Eles pensam que vão chegar aqui e
encontrar cegos, o que não é verdade. Por
aqui passaram e passam muitos bons
treinadores e jogadores do mundo todo.
Ninguém é bobo. A primeira coisa que eu digo
para os meus jogadores estrangeiros que
chegam é “treinem forte como vocês treinavam
no país de vocês ou vão se igualar aos
locais”. Quem está acostumado a treinar
forte tem que continuar a treinar forte.
Relaxou se iguala a eles.
Zé Mário, tirando o aspecto financeiro,
qual sua grande motivação profissional em
permanecer tanto tempo durante a sua
carreira no Oriente Médio, uma região longe
de ser uma vitrine?
Acho que é minha missão. Gosto deles e eles
de mim. Respeito e sou respeitado. Faço o
que acho bom para o futebol deles e eles me
são gratos. Não tenho que me relacionar com
empresários ou dirigentes empresários. O
futebol no Brasil está um caos. Ou você
aceita a situação ou cai fora. Preferi cair
fora do que me aviltar. Só voltaria com
prazer a trabalhar no Brasil se fosse com o
Fernando Miranda, ex-presidente do
Internacional de Porto Alegre.
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No centro da foto nos tempos de
Internacional de Porto Alegre |
A FICHA DE ZÉ
MÁRIO
Nome: José Mário de
Almeida Barros
Data de Nascimento: 01/02/1949
Local de Nascimento: Rio de Janeiro
Clubes: Botafogo (1982 a 83),
Figueirense-SC (83), Ceará (84),
Ferroviário-CE (84), Flamengo-PI (85),
Figueirense (85), Seleção Júnior do Iraque
(86), Goiás (87), Al Ain - EAU (88 a 90),
Goiás (91), América-RJ (92), Al Arabi-QAT
(92 a 93), Al Riyadh-ARA (93 a 95), Seleção
da Arábia Saudita (95 a 96), Al Riyadh-ARA
(96 a 97), Al Sadd-QAT (97), Seleção do
Qatar (98), Kashima Antlers-JAP (98 a 99),
Internacional-RS (2000 a 2001), Guarani-SP
(2001 a 2002), Al Ettifaq-ARA (2003), Al
Shabab-ARA (2004), Figueirense-SC (2005), Al
WAsl-EAU (desde 2006).
Títulos:
Campeão goiano (87 e 91), da Copa da
Federação dos Emirados Árabes (88), da Copa
do Emir, e da Federação do Qatar (92),
Campeão nacional do Qatar (93), da Copa do
Príncipe Herdeiro (94), Campeão japonês
(98), Torneio de Viña del Mar, no Chile
(2001), Copa do Rei Fahed (2004), da Copa e
da Liga nacional dos Emirados Árabes (2007).