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RENATO ANDREÃO ENTREVISTA

 

"SINTO-ME BASTANTE ADAPTADO AO FUTEBOL TUNISIANO"

Foto de Estevão em sua primeira temporada na Tunísia

O defensor Estevão Toniato é um dos raros brasileiros com ótima reputação no futebol da região magrebe, no norte da África. Tendo começado sua carreira no Atlético-MG, está há dois anos no Stade Tunisien, uma das equipes mais expressivas do futebol tunisiano. “Stevau”, como seu nome é pronunciado na região, bateu um papo conosco durante suas férias no Brasil, onde ele ilustra os problemas enfrentados no decorrer da temporada, as homenagens recebidas dos torcedores, e os bons resultados obtidos por clubes e seleções do norte da áfrica. O defensor dos “Baklawa” também falou sobre o título do Etoile du Sahel nesta temporada 2006/07, que por pouco não o contratou no inicio da temporada. O jogador, de 28 anos, já retornou a Tunísia onde a temporada 2007/8 já começou!


Essa foi sua segunda temporada no Stade Tunisien. Em 2005/6 vocês terminaram em 7º lugar, e agora, em 2006/7, na 6ª colocação entre os 14 times da liga tunisiana. Apesar da tradição, ficar atrás de Esperance, Etoile du Sahel, Club Africain, Sfaxien e Monastir é o máximo que vocês podem conseguir?

Não! Fizemos um time para ficar entre os três primeiros e começamos muito bem. O problema foi que o Presidente (Mohamed Achab) parou de cumprir as obrigações que tinha conosco. O salário até que ele pagava corretamente, mas as luvas ele não estava pagando. Nisso, o rendimento da equipe caiu.

Alguém do elenco foi falar com os dirigentes sobre esses valores em nome dos jogadores?

Lá não é assim não, é diferente, cada um por si. Os próprios jogadores tunisianos falavam “Vocês estrangeiros que se virem com a situação de vocês, nós veremos a nossa situação”. Eu falei pessoalmente com o presidente que eu fui pra lá para se destacar e ir para um lugar mais interessante. A Tunísia seria só uma ponte, eu não tinha interesse em ficar muito tempo.

O Stade Tunisien teve péssimas performances na reta final do campeonato. Foram quatro derrotas e um empate nos últimos cinco jogos. O que houve nas partidas finais da liga?

Foi uma coisa que veio se desenrolando ao longo da competição. Os dirigentes não pagavam os prêmios e os jogadores se desmotivaram. Na reta final, largaram de lado. Nós estrangeiros não, mas os jogadores tunisianos não se empenhavam mais.

Considera que o campeonato este ano foi mais disputado? Como está sua adaptação?

Sim, foi mais competitivo, nosso time se reforçou mais, me sinto bastante adaptado ao futebol tunisiano.

 
Em campo com a camisa 14 do Stade Tunisien


Ainda está feliz por atuar como líbero, uma posição que você adora executar?

Nosso time jogou no 3-5-2 em 80% dos jogos desta temporada. Eu adorei, é uma maravilha jogar de líbero.

Seu amigo Hércules falou comigo recentemente e fritou o EOG Kram, clube que ele defendeu nesta temporada e que caiu para segundona. Ao contrário de você, o Hércules não foi feliz na Tunísia. Você conversava muito com ele?

Todo mundo torcia para o EOG Kram cair. O time não tinha torcida, não tinha campo, não tinha nada. O EOG Kram sempre foi um clube de basquete, o futebol pintou recentemente. O presidente deles é casado com a filha do presidente da Tunísia. Eu falava sempre com o Hércules.

Mesmo bastante elogiado, o técnico Robertinho, ex-Fluminense, deixou o cargo no Stade Tunisien. Quais foram as razões para a decisão e o que ele acrescentou para o clube nesses dois anos que esteve lá?

Ele quis sair, pois tinha proposta boa do Qatar. O Robertinho foi incrível, coordenou a reestruturação do clube construindo um novo centro de treinamento, montou o time, revelou jogador. O nível dele como treinador é muito alto. Um profissional excelente.

O Robertinho também deu oportunidades no time principal para o Korbi, o Mabrouki, e o Zairi. Eles tem potencial?

Sim, foi o Robertinho que deu oportunidade para eles. São bons jogadores e estão na seleção de novos da Tunísia.

Como pintou aquela homenagem que a torcida ‘Bardo Boys’ fez para você numa faixa escrita “Stevau: No one pass” (Estevão: Não passa uma)?

Aquilo foi logo quando cheguei, o supervisor do clube me recebeu e me levou até Ariana, onde o time estava fazendo a pré-temporada. Fomos de carro com o presidente desta torcida (Bardo Boys), que falou comigo no carro “você está chegando agora e não vai passar nada”. Nós conversamos em inglês. Eu com aquele inglesinho básico que aprendi na escola (risos) e ele sempre repetia “Stevau no one pass”, e mandou fazer aquela faixa. Já me disseram que quando eu sair do clube eu posso levar a faixa.

Há um ano você foi sondado por Esperance e Club Africain. Houve algum outro interesse?

90% do que os jornais tunisianos publicam é mentira. Muito do que sai é pago pelos grandes clubes. Mas interesse sempre tem. Agora no final da temporada o presidente do clube (Mohamed Achab) me disse que quando jogamos o amistoso contra o Etoile du Sahel, na pré-temporada, ele estava sentado ao lado do presidente do Etoile (Moez Driss) que disse para ele “Esse zagueiro brasileiro me interessaria”, mas o Achab falou que eu só sairia para fora, que eu não seria negociado com nenhum clube da Tunísia. Se tivesse ido pro Etoile teria sido campeão.

Por falar em propostas o Stade Tunisien vai sofrer um desmanche agora. Além de Akrout e Kalfhaoui, estão de saída o seu amigo Edson e o guineense Denísio, não é?

O Edson já acertou com um clube do Egito, e o Denísio fez uma grande temporada (foi um dos artilheiros do time ao lado de Akrout). Ele tem propostas de equipes da Arábia Saudita e da Líbia. Ele jogou 15 anos em Portugal.

Quanto ao Achref Khalfaoui, meia que também arrebentou este ano pelo seu time, e que está fazendo testes no Anderlecht, da Bélgica. Ele é bem mascarado, não?

Ah! Todo bom jogador tem sua vaidade, não tem jeito. Ele é um cara estudado, muito inteligente. Foi revelado nas categorias de base do Club Africain e também jogou na seleção tunisiana de novos. Jogou muito esse ano.
 

É notável o sucesso de equipes do norte da África nas últimas competições internacionais. O Al Ahly, do Egito, já domina a Liga dos Campeões da África há algum tempo. O Setif, da Argélia, foi campeão da Liga dos Campeões Árabes. As seleções de Tunísia e Egito ganharam as últimas duas edições da Copa das nações africanas. Você percebe esse desenvolvimento no futebol da região?

Está crescendo bastante. Existe mais estrutura em relação as outras partes da África. A interação entre os times da região também é muito grande. Na pré-temporada sempre fazemos amistosos contra times de Marrocos, Argélia e de regiões próximas também. Ano passado realizamos um amistoso contra o Al Ittihad, da Arábia Saudita, vencemos por 2x0, eu marquei um dos gols.

 
Estevão em ação contra o camaronês Njanka


Foi merecido o título do Etoile du Sahel, que há 10 anos não ganhava o campeonato tunisiano?

Muito merecido! Na 5ª rodada fomos a Suisse enfrenta-los e eles jogaram muito. Nunca corri tanto na minha carreira quanto naquele dia. Não perdemos de muito não sei como (o placar foi 2x1). Quando terminou o jogo eu pensei “Esse time ai é o campeão”.

O técnico da seleção tunisiana, o francês Roger Lemérre, vai assistir os jogos do campeonato com freqüência?

Depois da Copa do Mundo ninguém estava satisfeito com o trabalho do Lemérre, mas ele continua no cargo. Ele costuma ir sempre aos estádios, especialmente nos clássicos.

Como está sua situação no Stade Tunisien?

Por enquanto eu retorno para cumprir mais dois anos de contrato. Vamos disputar a Liga dos Campeões Árabes, estou com 28 anos e já fiz meu nome no mundo árabe. Já tive oportunidade de jogar na Europa, no Benfica B, onde joguei com o irmão do Maniche (Jorge Ribeiro) e com o próprio Maniche, quando tiraram ele da equipe principal e ele ficou uma semana no time B, onde também estava o Bruno Aguiar (hoje no Hearts Midlothian, da Escócia). Estou satisfeito com o que construí até hoje.

A FICHA DO ESTEVÃO

Nome: Estevão Alvarenga Toniato
Local de Nascimento: Vila Velha (ES)
Data de Nascimento: 06/04/1979
Clubes: Atlético/MG (1998 à 2000), Benfica B (2001), Entrerriense/RJ (2001), Rio Branco/ES (2002 à 2004), Estrela/ES (2005), Stade Tunisien (desde 2005)

 

 
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