Vivendo em Guarapari, no
Espírito Santo, Marcelinho, ex-ponta
esquerda do Bangu, nos anos 80, bateu um
papo conosco repassando sua carreira e
abordando diversos aspectos relacionados aos
estados onde jogou. Aos 48 anos, este
carioca, que começou a carreira nas
categorias de base do Cruzeiro, de Belo
Horizonte, relembra com saudade os duelos
com o lateral Leandro, do Flamengo, que
incendiavam a torcida no Maracanã, e admite
as dificuldades em aceitar o fim da carreira
profissional mesmo depois de tantos anos sem
jogar “o tempo é implacável”. No final ainda
nos faz uma revelação. “Ainda pretendo ser
treinador”.
Certa vez Zico disse "Ás
vezes acordo no meio da noite depois de
sonhar que estava marcando um gol, com o
Maracanã lotado. Acho que Deus deve estar
brincando comigo quando me faz sonhar assim”
. Essa saudade intensa dos velhos tempos
é muito comum entre vocês, ex-jogadores?
Sim, quando se gosta daquilo
que faz é difícil que se passe um dia sem
ter saudades do que se passou. Até hoje me
considero um jogador de futebol, na verdade
não concordo com o título "ex-jogador", uma
vez jogador, sempre jogador.
Quando você começou no
Cruzeiro no fim dos anos 70, o clube já não
tinha Dirceu Lopes, Piazza, Zé Carlos,
Nelinho e Tostão. Mesmo nas categorias de
base, você observava que nos profissionais
havia dificuldade para se montar o time
depois de perder tantos craques?
Com certeza, porque os
técnicos não confiam muito em colocar
jogadores novos para repor o elenco, hoje em
dia é pior porque existem poucos craques e
esses poucos saem cedo para outros países.
Quando o Bangu ganhou o
Torneio Comitê de Imprensa, em 1980, você já
estava na equipe?
Sim, eu já estava na equipe,
o Bangu já tinha ganho esse torneio, em
1943.
Vocês foram campeões da XIV
Copa do Presidente, na Coréia do Sul, em 84.
Um torneio onde estiveram as seleções de
Tailândia, Guatemala e Coréia do Sul, e mais
o Sporting Cristal, do Peru, o Cercle Brugge,
da Bélgica e o Bayer Leverkusen, da
Alemanha. Quais as principais lembranças que
você tem daquela viagem e claro, como foi
esta conquista?
Foi uma viagem maravilhosa,
ganhamos todos os jogos e aproveitamos bem,
até hoje tenho fotos tiradas por Paulinho
Criciúma, que além de jogar era o nosso
fotógrafo oficial.
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Bangu em excursão na Coréia |
O Cláudio Adão tem que te
agradecer muito pela artilharia dele no
Carioca de 84? Se recorda de algum passe que
você deu para ele marcar?
Sim, um drible que dei no
lateral e fiz um cruzamento na cabeça dele,
e ele, como ótimo cabeceador, colocou a bola
no ângulo do goleiro.
O Arturzinho, figura chave no
vice-campeonato brasileiro de 85 pelo Bangu,
era um jogador inteligente e você já
percebia que ele teria potencial para se
tornar treinador ou foi uma surpresa quando
ele parou de jogar e se lançou numa carreira
de técnico de futebol?
Não foi surpresa porque
Arturzinho dentro de campo já se mostrava um
líder comandando as ações do jogo.
Ter saído do Bangu pouco
antes do time conseguir o vice-campeonato
brasileiro e participar da Libertadores foi
algo que te deu arrependimento?
Não. Eu ainda participei de
alguns jogos do vice-campeonato.
Como eram os clássicos
regionais contra o Campo Grande? Se recorda
de algum em especial?
Era praticamente um clássico
do subúrbio, em 1980 ganhamos a taça Euzébio
de Andrade em cima deles, por 1x0. Foi um
grande jogo.
Quem mais te encantou: o
Flamengo de Zico, o Vasco de Roberto
Dinamite ou o Fluminense de Washington e
Assis?
Todos foram ótimos times, mas
o time do Flamengo era espetacular, e eu
tive a oportunidade de travar grandes duelos
contra o Leandro, que na época era o melhor
lateral do Brasil.
Você ainda tem contato com
seus ex-companheiros de Bangu? Quantas vezes
por ano vocês se falam?
Quando vou ao Rio tenho
sempre encontrado com o Marinho (ponta
direita) e converso com Mario e Jair pela
internet, os outros faz tempo que não tenho
contato.
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O time do Bangu nos anos 80 |
Quando você foi jogar o
Paulistão 82 pelo Internacional de Limeira,
você notou alguma diferença entre o futebol
carioca e paulista?
Naquela época o futebol
paulista era de pegada, principalmente jogos
no interior, apesar de ter craques como
Sócrates, já o carioca era mais técnico,
tinha mais espaços, principalmente no
Maracanã.
Depois de tantos anos no Rio,
você parece que queria experimentar coisas
novas e jogou no Espírito Santo, Amazonas, e
Minas Gerais. Em 86 quando você chegou no
Rio Branco, dava para imaginar que o futebol
capixaba estava tão decadente a ponto de
chegar na situação que está hoje, ou a
realidade na época era animadora?
Na época parecia que o
futebol capixaba ia deslanchar, mas no
finalzinho dos anos 80 e começo dos 90
começou a cair de tal maneira que chegou a
esse ponto.
Ano passado entrevistei o
meia Carlos Eduardo, que veio do futebol
paulista (Rio Branco, de Americana) jogar
aqui no Espírito Santo. Segundo ele, quando
falaram que ele viria para o Rio Branco-ES,
ele pensou que fosse o Rio Branco do Acre,
pois não conhecia nada do futebol capixaba,
apesar do Espírito Santo ser bem mais
próximo de São Paulo que o Acre. Na sua
opinião, existe salvação para o futebol
capixaba?
Em muitos lugares que joguei
todos conheciam o Rio Branco e a Desportiva
mas com a decadência do futebol capixaba, a
mídia esqueceu esses times e por causa
disso as novas gerações não conhecem nada
do futebol daqui. A salvação está numa
verdadeira profissionalização dos
clubes fortalecendo as categorias de base e
só assim a iniciativa privada terá coragem
de investir.
Além de Desportiva e Rio
Branco, você atuou no Muniz Freire, nos anos
90. Conte-nos como era a realidade de um
clube do interior do ES na época?
Disputei a Copa do Brasil
pelo Muniz Freire, que apesar de não ter
a estrutura de um grande clube, tinha uma
diretoria esforçada e alguns torcedores
ajudavam o clube.
Quando você chegou no Fast,
de Manaus, em 94, o time não ganhava o
campeonato amazonense há 23 anos (até hoje
esse jejum se mantém). Era muito difícil
bater de frente contra o Nacional e o Rio
Negro, potências estaduais, e mais o Sul
América, que era o 'time da moda' no
Amazonas?
O Fast clube não ganhava o
campeonato, mas era considerado um dos
grandes de Manaus, e na época, chegou a
contratar o Josimar (ex-Botafogo e seleção
brasileira) e outros jogadores, mas não
conseguiu ser campeão.
Descreva para nós como é o
futebol praticado no Amazonas? Muita Pegada
ou cadenciado?
Era mais cadenciado, pois a
maioria dos amazonenses torcem para os times
do Rio e assim gostam de um futebol mais
técnico.
Você se recorda qual foi sua
última partida como jogador profissional?
Foi um jogo em Manaus, quando
estava fazendo faculdade de Educação Física.
Você teve uma experiência
curta como treinador, no Libermorro, do
Amazonas, em 1997. Como foi essa experiência
e porquê você desistiu da carreira de
técnico?
A experiência foi muito boa,
pois peguei um time em último lugar e
consegui que ele disputasse um triangular
final. Não desisti, mas por problemas
familiares tive de viajar para o Espírito
Santo e aqui as oportunidades não são muito
boas. Além disso, sou professor de educação
física, o que me dá um retorno financeiro
maior do que os clubes daqui do estado (ES)
podem oferecer. Mas não é um sonho
esquecido, pretendo ainda ser técnico de
algum time.
A posição de ponta-esquerda
está desaparecendo no futebol. No Brasil,
talvez Denílson e Sávio foram os últimos que
jogaram com sucesso. Como você vê essa
'extinção' do ponta-esquerda?
Com tristeza, porque me
lembro que os torcedores do Bangu na minha
época iam ao estádio só pra me ver jogar
nessa posição porque gostavam dos dribles e,
hoje em dia, alguns técnicos preferem o
futebol monótono ao futebol de espetáculo e
ao mesmo tempo objetivo, que os grandes
pontas proporcionavam ao futebol brasileiro
e mundial.
O que leva um 'carioca da
gema' a querer morar em Guarapari, no
Espírito Santo?
Conheci a cidade de Guarapari
e adorei, aqui formei família e por conta
disso fiz daqui um lugar para morar e criar
meus filhos.
Qual foi o jogo da sua vida?
Foi um Bangu x Flamengo
disputado no Maracanã pelo campeonato
carioca que fiz um golaço em Raul (goleiro),
mas que foi anulado pelo juiz.
O gol mais bonito?
Foi no Campeonato Carioca
contra o Americano, de Campos, que driblei
toda a defesa e coloquei a bola no cantinho
do goleiro.
Maior mancada na carreira?
Não ter aproveitado as
chances que tive de ter ido pro Fluminense e
Palmeiras. No Fluminense, o técnico Nelsinho
me queria de qualquer maneira mas eu preferi
ficar no Bangu.
Melhor jogador que viu
atuar?
Zico e Pedro Rocha, este
último tive a oportunidade de jogar com ele
no Bangu, em 81.
Qual foi o defensor mais
difícil de enfrentar?
Leandro, lateral do Flamengo,
que tive ótimos confrontos.
Se não fosse jogador seria o
quê na vida...
Não tenho idéia, pois acho
que nasci para o futebol e o minha maior
tristeza é ter parado de jogar futebol, mas
o tempo é implacável com o ser humano!
A FICHA DO
MARCELINHO
Nome:
Marcelo Trindade dos Santos
Local de Nascimento:
Rio de Janeiro
Data de Nascimento:
25/01/1959
Clubes:
Cruzeiro-MG (1978 à 1979),
Bangu-RJ (1980, 1981, 1984 e 1985), Internacional-SP (1982), Madureira-RJ (1983),
Serrano-RJ (1985), Cabofriense-RJ (1985),
Rio Branco-ES (1986), Nacional-AM (1987),
Uberaba-MG (1987), Desportiva-ES (1988 à
1991), Guarapari-ES (1991), Muniz Freire-ES
(1992 e 1993), e Fast-AM (1994).
Como treinador:
Libermorro-AM (1997)